"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Biblicamente: o governo deve punir o uso de drogas?

Vivemos tempos indecisos na política e esta tem perdido a cada dia sua credibilidade. Tempos de trevas também abundam o judiciário, o qual é comprado e/ou profere decisões totalmente absurdas. O legislativo, então, não merece sequer comentários. E diante de tanta bagunça e desilusões com os poderes de nossa república, não poderíamos esperar que os mesmos sejam qualquer referência de moralidade, legalidade ou licitude para nós.

Todavia, ainda é o nosso Judiciário que julga as demandas levadas até ele e é o que acontecerá muito em breve (em verdade, hoje mesmo, se tudo ocorrer dentro do planejado), com um caso onde um usuário de drogas foi pego com uma pequena quantidade. Em resumo, o Supremo Tribunal Federal (STF) - órgão máximo no Judiciário brasileiro -, irá decidir se portar uma pequena quantidade de droga para consumo próprio, continua ou não sendo crime. O STF já julgou inúmeros processos envolvendo drogas, mas ao que tudo indica, o que está pautado para hoje, será o primeiro que envolverá determinado artigo da Lei Antidrogas, o qual poderá ser considerado inconstitucional, por violar liberdades individuais, não ferir a moralidade pública e outras coisas mais.

Independente da decisão que os ministros do STF prolatem, como cristãos, temos interesse em, primeiramente, saber o que a Bíblia nos diz sobre este assunto de punição ao usuário de drogas. Vamos ser objetivos em nossa análise.

A Escritura revela que existem inúmeros pecados que devem ser punidos pelo magistrado civil. Bem, mas o que é pecado? João nos responde: "Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei" (1Jo 3.4). Pecado, portanto, é tudo o que viola a Lei de Deus e esta é bastante clara no Antigo Testamento. Ninguém pode dizer o que é ou não pecado, se não entender a Lei de Deus. É simples assim.

Entretanto, a Bíblia demonstra que nem todo pecado, especialmente no Antigo Testamento, é punido pela magistrado civil. Quer dizer, nem tudo aquilo que Deus considera pecado, significa que os juízes (investidos pelo poder do Senhor) devem punir. Êxodo 22.9 e outros textos, nos mostram a legitimidade dos juízes para decidirem as causas (desde que decidam de acordo com a Palavra de Deus). Vamos a alguns exemplos básicos:

- adultério: é punido pelos magistrados (Lv 18.20; 29)
- homossexualismo: é punido pelos magistrados (Lv 18.22; 29);
- zoofilia (sexo com animais): é punido pelos magistrado (Lv 18.23; 29);

Várias outras passagens poderia ser colacionadas, demonstrando que inúmeras práticas eram consideradas pecado diante de Deus e por isso seus praticantes deveriam ser punidos. E aqui ninguém se engane: a ordenança para obedecer as leis era estendida aos judeus e aos estrangeiros que viviam junto com o povo de Deus: "Porém vós guardareis os meus estatutos e os meus juízos, e nenhuma destas abominações fareis, nem o natural, nem o estrangeiro que peregrina entre vós" (Lv 18.26).

Algo salutar e que convém deixar registrado é que existe uma diferença entre crimes de perigo concreto e abstrato. Perigo concreto são aqueles crimes que exigem a comprovação de algum dano, como no caso de maus tratos aos animais: os animais sofrem e por isso existe a lesão. Já para o crime abstrato, a mera conduta, mesmo que não resulte em nenhuma lesividade, já é considerada crime, como no caso de dirigir sob o efeito de álcool ou outra substância que altere o estado normal do indivíduo: a mera possibilidade de ocorrer algo errado, já é considerado crime.

Isto posto, vemos que o adultério, conquanto fosse punido pelos magistrados, precisava de duas ou três testemunhas, conforme lemos: "Quando no meio de ti, em alguma das tuas portas que te dá o Senhor teu Deus, se achar algum homem ou mulher que fizer mal aos olhos do Senhor teu Deus, transgredindo a sua aliança [...] Por boca de duas testemunhas, ou três testemunhas, será morto o que houver de morrer; por boca de uma só testemunha não morrerá" (Dt 17.2, 6). Ou seja, a mera conduta de adulterar, escondido e sem ninguém ter visto, não era punido pelo magistrado - até porque ninguém saberia do ocorrido, não é mesmo? 

E com relação a outras práticas, como no presente caso, o uso de substâncias que alteram a forma de percepção do mundo? É evidente que não cabe, neste pequeno texto, uma definição sobre o que é ou não droga, mas convém lembrar que muitas coisas não consideradas "drogas", são nocivas ao corpo. Alguém pode não fumar crack ou usar cocaína, mas vive cansado e fadigado porque só come "bobagem", por exemplo, vindo a morrer antes mesmo do "usuário de drogas". Para simplificar, vamos entender o termo "drogas" como tudo aquilo que altere o estado comum do homem e que lhe traga prejuízos (seja para mais ou para menos). Tal definição é importante, pois a Bíblia ordena que cuidemos de nossos corpos físicos (1Co 6.19-20) e que tenhamos cuidado com substâncias que nos tiram o domínio próprio e nos levam a cometer atos descabidos (Pv 23.29-35).

Desta forma, biblicamente, percebemos que os autores de tais práticas proibidas pela Escritura, nunca eram perseguidos com relação a sua vida particular. A própria proibição de ir adorar outros deuses, não era punida no âmbito privado - o indivíduo que em sua casa, fizesse uma oração a alguma outra deidade, não era punido pelo magistrado, pois não temos nenhum relato disso na Escritura.

É bem verdade que o uso de drogas não aparece de forma "clara" na Escritura e por isso temos de ter o cuidado quando tocamos neste assunto. Por outro lado, o silêncio quanto à punição pelo uso das mesmas, não parece encontrar lugar junto ao texto bíblico e creio que por uma simples razão: os possível atos decorrentes do seu uso, já possuem a devida punição. O indivíduo que usasse alguma droga e furtasse, teria de restituir; se matou, seria morto; se estuprou, seria morto; se enganou e dissimilou, receberia as devidas sanções...

Noutras palavras, a Bíblia não parece orientar os magistrados para que, no tocando ao prejuízo gerado para si mesmo, punam por crime abstrato, ou seja, pela mera conduta, devendo somente punir os delitos derivados destas condutas. O fato de alguém querer estragar o seu próprio corpo (você que se enche de batata frita toda semana e não faz exercícios, vá com calma no julgamento alheio, ok?), muito embora seja uma afronta ao corpo criado por Deus, não recebe punição pelo magistrado, de acordo com a Escritura. 

Aqui, alguém pode dizer que se liberado o uso (e estendo para a venda) de drogas, os jovens irão morrer e pessoas ficarão doentes, lotarão os hospitais e tudo o mais, quando não mencionarem o fato de as drogas, por viciarem, motivarem outros delitos. Tal argumentação é verdadeira e precisa ser levada em conta, todavia, nem sempre se furta/rouba para manter o vício e o furto/roubo já é punido biblicamente (e em nosso país), não importando o que motivou tal delito. Se as políticas públicas não conseguem punir com severidade os demais delitos, não é proibindo algo que a Bíblia não proíbe, que se chegará a uma solução melhor.

Ser favorável à descriminalização, não significa apoiar e promover as tristes consequências que isto tem para a vida da sociedade (afinal, as drogas circulariam com muito mais facilidade nos mais diversos lugares) e por isto precisamos conscientizar as pessoas dos malefícios que seu uso acarreta. Pais, igreja e toda a sociedade precisa estar ciente dos prejuízos causados pelas drogas, assim como orientar a todos de que cada um responderá por seus atos que venham - ou não - a ser praticados em decorrência do uso de drogas. 

Assim, concluo esta breve reflexão (que não esgota o assunto, evidente) dizendo que, ao meu entender e por não visualizar qualquer exemplo bíblico onde possa me apoiar, sou favorável a descriminalização do uso/venda de drogas. Não sou favorável à legalização das mesmas, pois o Estado teria de controlar, incidir impostos e se intrometer ainda mais na vida particular. Voto pela prática deixar de ser crime - sem excluir, porém, o voto de que o Estado deve buscar promover campanhas e outras práticas que não incentivem tal conduta -, afinal, biblicamente, não encontramos motivo algum para se encarcerar quem utiliza/vende drogas - em verdade, o encarceramento sequer é bíblico - mas este ponto fica para outro texto.

A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo em sinceridade (Ef 6.24).

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O exercício físico e seus benefícios mentais


Em agosto de 2014, tive o prazer de conseguir relatar a maravilhosa experiência de participar de minha primeira maratona em trilhas, praias e morros. Naquela ocasião (clique aqui para ler), busquei enfatizar o quanto o exercício físico pode nos ensinar sobre a importância da perseverança na vida cristã.

Agora, em agosto de 2015, mais precisamente no dia 08, tendo acabado os cinco anos de faculdade e me lembrando da icônica corrida do ano passado, resolvi encarar um novo desafio: correr 50 km por minha cidade. Se para o ano passado eu não havia treinado o suficiente e por isso sofri bastante (mas que lembro com saudades e faria tudo outra vez!), no presente momento eu vinha de um ano inteiro correndo e treinando - não com este foco específico, mas sempre na atividade e em movimento.

Para estes 50 km, saí às 05:45 de casa e corri perto de 1,5 km até onde me encontraria com um colega e outro rapaz que nos iria acompanhar de bicicleta. Chegando lá, infelizmente, nem sinal do corredor amigo - descubro, depois, que acabou programando errado o despertador. Reflito e mentalizo o trajeto proposto e me pergunto se conseguiria encarar tal jornada sem outro colega ao lado, afinal, seriam meus primeiros 50 km e tudo fica mais fácil com companhia de alguém que sofre contigo. Se desistisse, além de sentimento de "ser um fracassado" e de ter de dizer pra esposa e pra família que "não deu, porque eu tive medo de tentar", jamais saberia se correr tal distância me era possível e qual é a sensação de a terminar. Gentilmente, então, peço para o colega da bicicleta colocar minhas duas garrafas de isotônico em sua mochila e começamos o trajeto - desistir não era mais uma opção. Graças a Deus os 50 km foram concluídos com sucesso, tendo sido finalizados em 5h e 29min. 

Passado este final de semana memorável (formatura em Direito, festa em família e os 50 km), estava lendo, nesta manhã, um interessante texto chamado Correr uma ultramaratona é a melhor forma de tortura [1], onde Lee Stobbs relata sua "loucura" de ter encarado uma das ultramaratonas mais difíceis que existe [2], mesmo nunca tendo corrida uma. Tal "ultra" consistia em correr de maneira autossuficiente (ou seja, levando todo o suprimento necessário) durante 7 dias, tendo de percorrer 272 km. Dentre as tantas dificuldades narradas e pensando sinceramente em desistir, o autor relata que ganhou novo ânimo ao escutar de outro corredor: nossos corpos sempre irão desistir, mas o corpo nunca está cansado se a mente estiver boa. E ele conclui seu texto da seguinte forma: eu posso estar quebrado, mas nunca me senti tão vivo.

Por meu pequeno conhecimento e informação sobre atividades físicas e acompanhando vários atletas e outras pessoas que passaram a se exercitar a partir de algum estímulo que receberam, posso afirmar que as palavras de Stobbs se encaixam perfeitamente em quase todos os praticantes de atividade física: é duro, difícil, extremamente desgastante e surgem infinitas vontades de desistir durante sua prática, todavia, o fim é glorioso. É algo inexplicável. É quase mágico: você sofre, tem vontade de xingar a si mesmo (por ter se colocado em tal encrenca), pensa em mudar para um esporte onde possa ficar sentado, por exemplo, mas ao fim (ou logo após ele), não perde por esperar a próxima oportunidade de experimentar tais sentimentos. É realmente algo inexplicável. Eu diria que é uma experiência que somente pode ser sentida e toda tentativa de a partilhar, sempre será menor do que a realidade.

Em nossa vida cotidiana, conhecemos muitas pessoas que se queixam de serem preguiçosas, frequentemente desistentes de seus sonhos e vontades, não tendo ânimo para muita coisa e sempre crendo que não são capazes de fazer algo grandioso. Em toda a família existe um indivíduo que se considera "menos" que os outros; em toda roda de amigos sempre há o que se julga "não ser bom em nada"; e sem contar o número sem fim de pessoas que sequer começa algo, pois temem não conseguirem completar.

Ontem, me dirigindo ao trabalho e escutando a rádio CBN, ouvi o professor Jair Santos comentar sobre o porquê muitos não "mudam" e tendem a permanecer sempre na mesmice - e uma das causas elencadas, dizia respeito a que o medo de não conseguir era maior do que a vontade de tentar. E me lembrei, por óbvio, que idêntica coisa acontece quando se busca começar alguma atividade física ou se lança um desafio aparentemente grandioso: tememos mais o fracasso, do que temos energia para empreender rumo ao, relativamente, desconhecido. 

No texto de Stobbs citado, ele comenta sobre suas incertezas e inseguranças antes de se lançar em tal prova, afinal, quantos medos iria enfrentar e como iria reagir diante da sensação de insegurança por causa do inesperado - como suportar tudo isso? Correr por onde? Sozinho? Durante a noite? Passar por desertos, subir montanhas e andar em desfiladeiros? E se eu me perder? E se acabar a comida? O mesmo medo que tentava o aprisionar, também o impelia à mudança. Era o medo empreendedor que move o homem, o levando a experimentar novas sensações e crescer com elas.

É por isso que no exercício físico você aprende que, conquanto treinar o corpo seja essencial, se você não estiver mentalmente bem, tudo será em vão. Experimente, por exemplo, depois de uma discussão com seu cônjuge ou uma briga inesperada, tentar fazer algo que lhe seja desafiador: a probabilidade de êxito será bastante pequena. Pior: lance um desafio e estando à beira de o começar, descubra que algo grave em sua vida (uma dívida que você não lembrava, uma doença em algum parente querido...) não está como deveria e você verá a importância da "saúde mental" para a boa execução dos trabalhos.

Minha primeira corrida de 50 km foi um upgrade naquilo que os atletas/treinadores chamam de "calo mental". Você pode até estar preparado, fisicamente, para encarar o objetivo proposto, entretanto, se não estiver experimentado o suficiente, é bastante provável que irá desistir, pois seu corpo precisará de estímulos que não existirão. Se sua mente não estiver calejada o suficiente, ela aguentará poucos combates consigo mesmo e logo a vontade de desistir reinará. Se você não aprender a sofrer sozinho e se vencer, poucas experiências de glória lhe aguardam.

E é assim que finalizo esta breve reflexão, com o intento de animar você a se beneficiar dos exercícios físicos - não somente em matéria de saúde corporal, mas também mental. Sei que não é qualquer novidade, mas o fato de você ter precisar combater pensamentos como "desista", "olhe as pessoas nos carros - por que você está se esforçando?", "fique em casa assistindo televisão", "por que não uma pizza, em vez do exercício?", "agora chega: seu corpo não aguenta mais", certamente irá lhe trazer benefícios para muitas outras áreas e você se tornará mais forte mais encarar outros desafios que a vida lhe impor.

Não é à toa que nossos corpos se mexem, não é mesmo?

Notas:
[1] Clique aqui para ler (em inglês)
[2] Uma ultramaratona é qualquer corrida que tenha mais de 42,195 km. O autor resolveu correr a Grand To Grand Ultra.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Meu filho, você não merece nada


Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

- por Eliane Brum

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Existe diferença entre "Heresia" e "Erro teológico"?


Este blog já foi de textos mais longos - hoje, porém, sigo a linha "curto e direto", até porque são poucos que dediquem alguns minutos à leitura. Assim sendo, o texto a seguir será breve.

Recentemente me perguntaram se existe diferença entre "heresia" e "erro teológico". O questionador, creio, tinha a intenção de verificar se é possível dizer que algumas coisas são frontalmente contrárias à palavra de Deus e Suas verdades essenciais, enquanto outras se enquadrariam, penso, em algum desvio da verdade, mas sem comprometer os sustentáculos do Reino.

Respondendo à pergunta, sim, acredito que exista, no nível humano da compreensão, diferença entre estas duas coisas. Digo "humano", porque para Deus não existe "meia verdade" ou "pequena distorção da verdade", pois não vemos em Sua palavra, qualquer resquício de sombra de variação (Tg 1.17), não podendo, qualquer indivíduo, supor que o Senhor tolere máculas a Sua vontade.

Por "heresia", entendo aquele ensino pecaminoso e frontal ao se dissimular, enganar, ludibriar e ensinar o que é flagrantemente falso e viole doutrinas claríssimas da Escritura. Exemplos não faltam: soberania plena de Deus, depravação do homem, necessidade da fé em Cristo, um único mediador... Todas doutrinas inegociáveis da fé cristã. A lista não tem fim e é composta de doutrinas que, quando negadas/distorcidas, correspondem a rejeitar o próprio Deus e Sua Palavra.

Já por "erro teológico", muito embora, novamente, para Deus, não exista diferença, na vida pós-pecado, todos os homens, por mais puros que sejam, erraram e erram em algum ponto. Presbiterianos e batistas discordam sobre vários pontos, mas nem por isso se consideram inimigos da fé, desde que concordem nos pontos básicos da salvação; alguns cristãos pensam que o culto pode conter alguns elementos (banda, apresentação de crianças...), enquanto outros entendem que o culto do Novo Testamento deve ser mais singelo e simples; questões sobre como será a vida no porvir, então, não cansam de render bons debates e suscitar as mais diversas interpretações. Seja como for, são possíveis erros na teologia, isto é, na interpretação de quem Deus é e o que nos ensina, erros de interpretação, mas que não interferem na comunhão direta e plena com o Senhor, bem como com os irmãos.

É evidente que alguém poderá argumentar, por exemplo, que um "culto bagunçado" fere a comunhão com o Senhor e nisto sou obrigado a concordar. Todavia, não posso anuir com a ideia de que somente um "tipo" de culto seja aceitável diante de Deus. Sim, Deus tem apenas um tipo de culto em Sua Palavra e Ele deixou exemplos claríssimos de que abomina outras variações - mas, se nem mesmo os teólogos reunidos em Westminster conseguiram unanimidade em todos os assuntos, que razões haveríamos para crer que iríamos chegar a tal patamar?

Friso: creio que o culto deve ser da maneira "x", mas conquanto eu creia que estou acertando "deste lado", com certeza erro em tantos outros, razão pela qual posso enxergar a multiforme graça e misericórdia de nosso Senhor, o qual escolheu salvar tão terríveis pecadores e que em tantos pontos discordam entre si, além de precisar ter sempre em mente que o tipo de culto que julgo ser correto, pode, no fundo, conter algum erro.

Desta forma, concluo que existe diferença: a primeira (heresia) é uma afronta direta ao evangelho e compromete a união entre igrejas/indivíduos, enquanto a segunda (erro teológico), uma divergência entre assuntos que, se comparados ao essencial, são secundários e, portanto, passíveis de discussão e pontos de vista diferentes.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

10 princípios para maridos e pais cristãos


A maioria dos homens cristãos em círculos conservadores abraçam a verdade bíblica de que eles devem liderar suas famílias em Cristo. Embora a maioria abrace essa realidade e esteja convencida da sua necessidade, é igualmente verdade que a maioria de nós não tem certeza de como fazer isso. Poucos de nós cresceram em lares cristãos com pais cristãos fortes e piedosos para nos modelar. Como um marido e pai cristão lidera bem a sua família em Cristo? Eu sugiro que os princípios abaixo são um ponto de partida:

Busque a santidade: essa é a chave para liderar as nossas famílias em Cristo. Um marido e pai cristão não pode liderar onde ele não pisou. Assim como Paulo admoestou Timóteo a respeito do pastorado, “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina” (1 Timóteo 4.16), o mesmo se aplica ao “pastor” da casa. Se falta santidade em nossas vidas, então ela também faltará nos membros da nossa família. O maior impulso para o crescimento deles é o nosso próprio crescimento em Cristo.

Reconheça o que você pode e não pode controlar: aquele que pensa que pode controlar o coração dos outros é um tolo. Nós não temos tal capacidade e graças a Deus por isso. Podemos encorajar, exortar e ensinar nossas esposas e filhos na fé, mas não podemos controlar o seu envolvimento e crescimento na fé. Mas é nossa responsabilidade manter nossos próprios corações. Não negligencie o que você tem por responsabilidade enquanto persegue as coisas pelas quais você não é responsável. Maridos e pais servem melhor suas famílias quando estão tentando controlar a sua própria raiva, egoísmo, orgulho e língua. Que saibamos o que somos habilitados a fazer e aquilo que somente o Senhor pode fazer.

Proveja em todos os meios: a maioria dos maridos e pais cristãos reconhece a necessidade de sustentar as suas famílias materialmente. “Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente” (1 Timóteo 5.8). Mesmo que isso seja verdade no reino físico, também o é no reino espiritual. Por favor, traga para casa o bacon! Mas não pare por aí. Pratique um culto familiar consistente e regular; lidere a sua família na leitura das Escrituras, orando e cantando. Alegremente, leve a sua família à igreja a cada semana, envolva a sua família no ministério da Igreja, busque a hospitalidade convidando outras pessoas para sua casa, ore com e por sua esposa e filhos. Não pense que seu trabalho está feito apenas ao garantir um teto sobre suas cabeças, roupas nos seus corpos e comida em seus estômagos. Eles são corpo e alma, eles precisam da sua provisão no reino espiritual.

Pratique a humildade: liderar em Cristo é diferente do que o mundo entende por liderança. O mundo promove um tipo de liderança que exige ser servido. A visão cristã de liderança exige o servir. Caro marido e pai cristão, você é o servo chefe de sua casa. Parabéns! Em Cristo, “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mateus 20.26). Lideramos ao servir e muitas vezes esse serviço é sacrificial (Efésios 5.25).

Persista em alegria e ação de graças: defina o tom da sua casa. Um marido e pai cristão estabelece a cultura de sua casa mais do que ninguém. O adolescente temperamental, a criança exigente ou mesmo a esposa mal-humorada não são os fatores determinantes. Você é. Prossiga na alegria do Senhor e persista em ação de graças a Deus por todas as Suas boas dádivas (Tiago 1.17). Este é um grande ponto de partida para moldar a sua casa.

Seja efusivo no amor: Nenhuma esposa ou filho já disse: “Eu fui amado além da conta!”. Não seja o marido ou pai que é reservado em expressar seu amor. Faça a sua esposa se sentir preciosa. Nutra e a acalente (Efésios 5.29). Honre a sua vida com elogios, flores, presentes e carinho constante. Abrace-a por trás enquanto ela está lavando os pratos, encontre um tempo regular para ela escapar das demandas da casa, incentive-a a buscar amizades femininas piedosas, agradeça o cuidado que ela dá a você e seus filhos, planeje e execute encontros. Que ela nunca duvide que você a estima mais do que todos os outros. Permita que seus filhos vejam esse carinho. Os pequenos olhos de seus filhos devem te ver abraçar sua esposa constantemente. Quanto aos seus filhos, tenha por eles um amor implacável e infalível. Não importa as falhas, fraquezas, ou lutas que eles possam ter, o seu amor vai ser uma constante em suas vidas. Ele é fixo e nada pode roubá-lo. Você não vai ser um pai perfeito, mas banhar os seus filhos em amor é um passo para ser um grande pai.

Viva pela graça: Pedro diz: “vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil…” (1 Pedro 3.7). Paulo diz: “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (Efésios 6.4). Modele e pratique a graça em sua casa. Seja sensível ao pecado e ainda mais sensível para estender aos outros a mesma graça que você recebeu. Sua esposa e filhos devem te ver como alguém acessível, amável, gentil e gracioso. Ao ouvirem a palavra graça, ela não deve ser um conceito estranho às suas mentes. Eles devem conhecer e receber isso de você consistentemente.

Proteja e seja forte: Sua esposa e filhos precisam da sua força. Não só eles precisam da sua força, como também precisam saber que você está disposto a usar essa força para o bem deles. Você serve como seu defensor. Você deve defender a sua família com boa vontade e de bom grado, mesmo que isso lhe custe social, profissional, emocional ou mesmo fisicamente.

Glorie-se na fraqueza: mesmo quando você procura ser forte, deve reconhecer a glória em sua própria fraqueza. Sua esposa e filhos devem conhecê-lo como um homem que alegremente depende do Senhor. Quando eles refletirem sobre sua força, devem sempre entendê-la como vinda da parte do Senhor. E você deve se alegrar por eles conhecerem a fonte da sua força. Um marido cristão e pai fiel não vai mergulhar na sua fraqueza, mas glorificará nela. Ele irá continuamente olhar para Cristo e modelar essa virtude cristã suprema em sua família. Ele será um homem de oração, sabendo que grande parte de seu pastoreio ocorre de joelhos. Ele vai liderar o caminho ao pedir perdão em casa, tanto a sua esposa e filhos. Ele será rápido em conceder o perdão quando ofendido, vai refrear-se em ter expectativas muito altas sobre sua esposa e filhos, reconhecendo suas próprias falhas e fraquezas e estenderá a eles a mesma graça de que ele mesmo precisa.

Viva contemplando a Glória de Deus: esteja você no trabalho, descansando ou brincando, procure glorificar o Senhor. Paulo disse: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.” (1 Coríntios 10.31). Modele a sua família para viver com propósito. Estamos sempre vivendo à sombra da glória de Deus. Mostre a eles que cada momento é importante, cada pessoa é significativa, cada tarefa é importante. Ria ao brincar com seus filhos, sue ao trabalhar e cante alto ao adorar. Faça todas as coisas contemplando a Glória de Deus e as faça com todo o seu coração e alma, especialmente ao liderar a sua família.

Maridos e pais cristãos, a vocês foi dada a tarefa gloriosa e maravilhosa de liderar suas casas em Cristo. Liderar requer pensamento e intencionalidade. Como você está liderando a sua família no Senhor? Que princípios, práticas e atividades você está empregando para o bem deles e para a glória de nossa Cabeça, Cristo Jesus?

- por Kevin DeYoung
Fonte: Reforma 21

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A casa impecável ou uma esposa gentil?


Já aconteceu de, antes do meu marido sequer abrir a porta da garagem, eu já estava com o bebê no colo prontinha pra entregar pra ele, pra poder terminar a janta com as mãos livres. Junto com o bebê,  na ponta da língua já tinha uma lista completa do que fiz naquele dia: “Nossa, hoje o dia foi longo! Já lavei 2 cestos de roupa, limpei os banheiros, busquei o Josh na escola, brinquei com eles lá fora, dei banho e agora estou aqui tentando preparar a janta com o bebê no colo, pois já está cansado e não quer mais ficar no chão brincando. Agora vai você brincar um pouco com eles pra eu poder terminar” Meu marido muito querido pega o Noah no colo, dá um sorriso e diz: “vem aqui com o papai neném pra mamãe poder terminar a janta”. Enquanto isso, o Ian e o Josh já sairam se atropelando pra ver quem vai ser o primeiro a se agarrar nas pernas do papai pra brincar.

E ali estou terminando de temperar a salada, colocar os pratos na mesa e ouvindo as risadinhas de alegria dos três brincando com o daddy e refletindo em algo lindo que li alguns dias atrás:

“Algum tempo atrás, eu mandei uma lista pro meu marido das coisas que eu achava que ele gostaria que eu fizesse durante o dia em casa. Eu pedi pra que ele pusesse a lista em ordem de prioridade, do mais para o menos importante. Esta foi a lista que eu fiz pra ele:

- roupas passadas e limpas
- refeições completas, incluindo pão caseiro para seus sanduíches
- checar emails e respondê-los
- ser hospitaleira
- fazer trabalhos pra comunidade (se trata de uma família missionária na Unganda)
- Casa limpa, sem brinquedos espalhados

E esta foi a resposta do meu marido:

“Muito obrigada por me perguntar, mas eu prefiro que você deixe de lado todas estas coisas se necessário pra que você comece o dia com a certeza de que eu te amo, e como consequência de você saber que eu te amo, qualquer coisa que eu faça ou diga você me dê o benefício da dúvida de saber que eu fiz com boas intenções porque eu te amo. Descanse e diga não para algumas coisas para que você possa ter energia pra ser gentil e legal comigo e com as crianças.

Honestamente, eu aprecio tudo o que você faz, mas estas coisa já não se tornam importantes se o preço delas é sua atitude conosco. Talvez você ache que eu penso que você é uma má esposa ou mãe se você não consegue realizar todas estas coisas da lista, mas isso não é verdade. Eu prefiro ter uma casa um pouco desorganizada, ter que fazer sanduíches com pão comprado, não ter todas as deliciosas coisas feitas em casa etc mas ter uma esposa feliz, realizada e gentil que gosta de mim, ao invés do contrário. Então, pra resumir, a sua demonstração de amor para nossa família tem mais haver com QUEM você é do que com o que você faz.  Eu casei com minha melhor amiga e é ela que eu quero ter do meu lado, pois eu não casei com minha empregada.” (http://joyforney.org/a-kind-wife-2/) – Joy Forney

Sabe, ler este texto me levou a refletir sobre algo que creio que seja fundamental pra saúde da nossa família. O que será mais importante: o que eu faço ou a atitude com a qual eu faço?

De que adianta estar cozinhando pro meu marido ou ajudando meus filhos com alguma tarefa se tudo o que eles ouvem enquanto eu o faço é resmungação e reclamação: “nossa,  essa rotina é horrível mesmo. Décima vez que eu junto brinquedos hoje. Nossa, você não sabe como foi meu dia hoje, enquanto você estava lá na boa trabalhando eu tava aqui me matando.”

Não, eu não estou aqui defendendo que sejamos preguiçosas e não façamos nada com a desculpa que a atitude é que importa. Certas tarefas são necessárias e o serviço também é uma demonstração de amor. Mas qual o problema dos brinquedos ficarem um dia sem serem ajuntados se isto vai significar uma esposa e mãe mais feliz, que possa se sentar-se à mesa e rir com a sua família durante o jantar?

Existe um ditado popular em inglês que diz assim: “If Momma Ain’t Happy, Ain’t Nobody Happy”, em português seria “se a mamãe não está feliz, então ninguém está feliz.” E acho que isso é bem verdade. Nós, mulheres, esposas, mamães, somos aqueles que dão o tom, o colorido da casa. Podemos fazer muitas coisas na nossa casa e pelos maridos e filhos, mas se estivermos sempre murmurando e reclamando, estaremos afastando nossos filhos e maridos, em vez de trazê-los pra perto de nós.

Claro que o dia a dia é corrido e puxado, mas vamos nos dar o direito de aproveitar um pouquinho? Quando estamos perto de amigos queridos, gostamos de ficar conversando ao redor da mesa, passear juntos e dar boas risadas. Por que não fazer isto com nosso marido e filhos? Vai colocar o bebê pra dormir? Curta aquele momentinho, alise a pele macia e sinta o cheiro gostoso dos cabelinhos. Deixe a casa sem varrer um dia e sente-se pra jogar dominó com seus filhos. Saia pra dar uma caminhada e pegar um pouquinho de sol com seu pequeno. E tudo bem se de vez em quando tiverem que comer pizza congelada, pão com ovo ou comida requentada. Mas vale uma mãe e esposa feliz do que uma casa sempre impecável!

- por: Tathi
Fonte: Mamãe Real

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Uma casa limpa e uma vida desperdiçada


Você provavelmente já ouviu o ditado: uma casa limpa é sinal de um vida desperdiçada. O que quer que essa frase signifique, ela expressa um pouco da frustração e do senso de futilidade da vida nesse mundo. Pensei nesse ditado quando me deparei com o provérbio “Não havendo bois, o celeiro fica limpo, mas pela força do boi há abundância de colheitas“ (Provérbios 14.4). Um pouco de pesquisa nos mostra que comentaristas se dividem quanto ao real sentido dessa frase, mas creio que há uma explicação que se sobrepõe às demais.

De acordo com essa explicação, o provérbio fala sobre a bagunça de uma vida bem vivida. Tremper Longman diz que a moral da história é que “uma vida produtiva é uma vida bagunçada”.

Eu amo produtividade. Quero dizer, eu amo produtividade quando bem definida – a administração eficaz de talentos, dons, tempo, energia e entusiasmo para o bem dos outros e para a glória de Deus. Por essa definição, cada um de nós, não importa a vocação, deve buscar a produtividade com todo o vigor que possuir. E quando o fazemos, é inevitável que acumulemos alguma bagunça. Somos incapazes de usar nosso tempo, atenção, dons, energia e entusiasmo em busca de objetivos nobres enquanto mantemos cada canto de nossa vida arrumadinho.

A mesa do pastor estará ocasionalmente amontoada de livros e papéis. A bancada do padeiro algumas vezes estará repleta de potes, pães, farinha e açúcar. As mãos do mecânico estarão sujas de graxa e sua loja precisará mais uma vez ser limpa. E o lar – o lar as vezes será bagunçado, desordenado e descaradamente embaraçoso.

Longman diz: “Desejamos uma vida pura e limpa, como o celeiro ideal seria. Entretanto, um celeiro limpo, por natureza, significa um celeiro vazio, já que a presença dos bois não faz do celeiro um lugar arrumado. Entretanto, sem bois não há produtividade”.

Podemos facilmente dizer que desejamos uma casa limpa e organizada, assim como o perfeito celeiro deveria ser. Entretanto, uma casa limpa, por natureza, pode significar uma casa vazia, já que as crianças, maridos, convidados e aqueles filhos do vizinho não podem estar na casa para que ela fique livre de bagunça. Entretanto, sem todas essas pessoas, não há produtividade – não a verdadeira, bíblica, produtividade: sem crianças para cuidar, sem amigos para aconselhar, sem hospitalidade para oferecer.

Como muito nessa vida, você não pode ter tudo. Você não pode ter perfeita ordem e produtividade. Não pode ter uma casa cheia, acolhedora e convidativa, não pode ter todas as crianças alimentadas e arrumadas e ter todas as louças limpas e meias lavadas ao mesmo tempo. Você simplesmente não pode. É claro que isso não é uma desculpa para a preguiça e a negligência. Mas você precisa entender o que Derek Kinder diz: “a organização pode chegar ao ponto da esterilidade. Esse provérbio é o fundamento para a prontidão em aceitar a agitação e para ter a arrumação da bagunça como o preço do crescimento”. Crescimento ou produtividade, conforme for o caso. Uma casa arrumada é a prova de uma vida desperdiçada? De forma alguma. Mas uma casa em plena ordem não é necessariamente evidência de uma vida bem vivida.

Se você faz o que Deus te ordena, confusões certamente aparecerão. Mas tenha bom ânimo: de acordo com o homem mais sábio que já viveu, essa bagunça não é sinal de uma vida desperdiçada, mas de uma vida produtiva.

- por Tim Challies
Fonte: Reforma 21

terça-feira, 9 de junho de 2015

Por que Deus deveria impedir a guerra e nos dar paz?


Por que Deus deveria impedir a guerra? (por que o mundo e a sociedade deveriam ter paz?) Além da razão teórica que Deus deveria impedir a guerra porque é má... não pode haver dúvida de que a verdadeira razão pela qual as pessoas esperam que Deus impeça a guerra e dê paz social, é que elas desejam um estado de paz e sentem que têm o direito de viver em um estado de paz. 

Mas isso imediatamente levanta uma questão, que, em certo sentido, é a questão fundamental em relação a todo este assunto. Que direito temos nós à paz? Por que desejamos a paz? Quantas vezes, eu me pergunto, se nós enfrentamos essa questão? Não tem sido a nossa tendência tomar por certo que temos o direito a um estado e condição de paz? Será que não paramos para perguntar qual é o real valor e finalidade e função da paz? (...) Não é o suficiente desejarmos paz meramente para que possamos evitar o sofrimento... O negócio, a razão principal do homem na vida é servir e glorificar a Deus. É para isso que ele foi criado. É por isso que o dom da vida foi dado a ele. É por isso que estamos aqui na Terra. Todas as outras coisas são subservientes a isso - todos os dons e os prazeres que Deus nos dá tão livremente (...)

Mas é essa a nossa razão para desejar a paz? Essa é a razão pela qual desejamos a paz na sociedade e nações? É esse o motivo real em nossas orações para e pela paz? Merecemos a paz? Temos justificativas em pedir a Deus para preservar a paz e a conceder a paz? E se a guerra vem, e se sociedade e nações não tem paz, é porque não estavam aptos para a paz, porque não merecem a paz, porque nós pela nossa desobediência, impiedade e pecaminosidade, de maneira completa temos abusado das bênçãos de paz! Temos o direito de esperar em Deus para preservar um estado de paz apenas para permitir que homens e mulheres continuem uma vida que é um insulto ao seu santo Nome? 

- por Martyn Lloyd-Jones (Londres, 1939)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

10 maneiras de se trocar uma fralda suja para a glória de Deus


"Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31).

1. Uma vez que o uso de fralda pressupõe alguma criança, agradeça a Deus por mais esta preciosa vida que foi concebida (Jó 3.10);

2. Caso a fralda esteja muito "carregada" e a criança tenha se sujado toda, veja além do ato de limpeza, se concentrando no bem-estar dela (Mt 7.12);

3. Se a criança for o seu filho, louve ao Senhor pela bênção recebida, pois é melhor uma casa com fraldas sujas, do que uma vazia e sem filhos (Sl 127.4-5);

4. Quando precisar a trocar durante a madrugada, muitas vezes com frio e bastante sono, louve ao Senhor por poder auxiliar o necessitado na hora da dificuldade, tal como Ele faz com os Seus filhos (Sl 40.17);

5. Mães: trocar muitas fraldas, realmente, pode ser cansativo, mas relembre que o foco não é a fralda, e sim o externar o amor por seu filho, ainda que com um singelo gesto; por isso, não seja cruel com seu pequeno (Lm 4.3);

6. Pais: embora seja a mãe quem amamente, geralmente quem prepara a mamadeira e troca as fraldas, não se esqueça de que sua responsabilidade também existe e por isso ajude sua esposa em tudo o que puder, inclusive trocando as fraldas, afinal, o filho também é seu (Mc 10.8);

7. Tenha em mente de que uma fralda suja significa um corpo em bom funcionamento e por isso agradeça a Deus (Sl 139.14);

8. Pode parecer algo "simples", mas o fato de poder trocar uma fralda suja, coopera para o seu bem, nem que seja para lhe dar um pouco mais de paciência (Rm 8.28);

9. Também pode parecer algo "normal", mas o momento de sujar a fralda foi já determinado pelo Senhor (At 17.24);

10. Ore a Deus para que a pequena criança que está diante de você, siga os caminhos do Senhor e use o seu corpo não para a prostituição, e sim para a glória do Eterno (Lv 19.29; Mt 6.22).

terça-feira, 5 de maio de 2015

O cristão e a Ecologia


O presente tema é de bastante importância para os cristãos, uma vez que sendo a Bíblia nossa regra de fé e prática, bem como sendo totalmente útil para nos habilitar às boas obras (2Tm 3.16-17), precisamos compreender o que o Senhor nos ensina sobre a ecologia.

Por ecologia, me refiro à natureza criada pelo Senhor. Sim, tudo aquilo que o Senhor "viu que era bom" e que posteriormente foi manchado pelo pecado. Por ecologia, quero pontuar sobre as coisas que também são fruto da criação de Deus por meio de dons dados aos homens, como a manipulação de espécies e outras coisas mais. Ainda: por ecologia, enfatizo todo o sistema natural que nos cerca, desde as águas até às menores criaturas.

A Bíblia é bem clara em registrar que o homem (gênero) é responsável pela criação de Deus. Vemos isso já no início do relato: "E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar" (Gn 2.15 - grifado). Aqui temos a evidência cabal quanto à necessidade de Adão e Eva cuidarem daquilo que o Senhor havia feito. Este mandato cultural não era somente para eles, evidente, e sim se estendia para todos os seus descendentes.

Não é o propósito desta breve reflexão, mas pontuo sobre que Adão e Eva não andavam ociosos antes do pecado, antes, tinham todo um mundo para cuidar! O primeiro casal precisava plantar, regar, colher, mexer a terra e tudo quanto envolve o cuidado com a natureza, tendo, porém, a certeza de que tudo ainda não era manchado pelo pecado (não haviam "espinhos e cardos" - Gn 3.18). Desta forma, quando lemos que "toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora" (Rm 8.22) e acerca de Cristo ser o novo Adão (1Co 15.22; 45) e, assim, redimir todos os Seus, podemos ter a certeza de que o porvir não nos espera com uma vida de ócio, andando pelas nuvens à toa e sentados em baixo de uma figueira gloriosa, e sim uma vida de trabalho, mas um trabalho magnífico, sem choro, lágrimas, tristezas e tudo quanto o mais inunda esta presente vida. Em resumo, voltaremos à excelência do Éden.

Voltando ao tratado, não devemos pensar que o pecado aboliu tal mandato cultural, pois mesmo após a desobediência e sentença de morte, lemos claramente: "O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado" (Gn 3.23 - grifado). Ou seja, mesmo estando fora do Éden e sujeito às paixões pecaminosas, o homem deveria cuidar da natureza.

Frise-se que "cuidar da natureza" não é sinônimo de se evitar a alimentação carnívora, por exemplo, porque o próprio Senhor destinou os animais para o consumo (Gn 9.3 - sim, devemos ser contra a crueldade com animais, é óbvio, mas não vamos além da Palavra, assim como a Escritura não diz quais animais são ou não apropriados para nós; biblicamente, ainda que contrário à nossa cultura, um gato é um animal comestível); também não significa que devemos pecar pelo excesso de "pureza" e proibirmos avanços que trarão benefícios a todos, como a construção de uma hidrelétrica. "Cuidar da natureza", aqui, tenho por preservar a criação de Deus, de modo que sirva aos interesses atuais e preserve os futuros, criando um sistema sustentável e que louve ao Senhor.

A Bíblia nos dá um motivo claro pelo qual devemos cuidar da natureza: "E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente" (Gn 2.16). A natureza "será para vosso mantimento; tudo vos tenho dado como a erva verde" (Gn 9.3). Isso quer dizer que quando oramos ao Senhor pelo "pão nosso de cada" (Mt 6.11), estamos rogando a Ele para quem nos sustente e desde já podemos O agradecer, pois tudo o que temos vem, de alguma maneira (direta ou indiretamente) da natureza criada por Ele. A natureza, portanto, tem papel essencial ao homem, pois é dela que retiramos nosso mantimento. Devemos zelar por ela, pois é criada por Deus e o Ele mesmo disse que tudo o que criou é "muito bom".

Temos outro bom exemplo da importância de cuidarmos da natureza: "Quando sitiares uma cidade por muitos dias, pelejando contra ela para a tomar, não destruirás o seu arvoredo, colocando nele o machado, porque dele comerás; pois que não o cortarás (pois o arvoredo do campo é mantimento para o homem), para empregar no cerco. Mas as árvores que souberes que não são árvores de alimento, destruí-las-ás e cortá-las-ás; e contra a cidade que guerrear contra ti edificarás baluartes, até que esta seja vencida" (Dt. 20.19-20 - grifado). Havia esta lei para o povo de Deus, a fim de que ao sitiarem uma cidade (fazer o cerco, a rodearem no intuito de atacar ou impedir a fuga), não destruíssem tudo o que vissem pela frente, pois a natureza serviria para a alimentação do Seu povo. Veja-se que, igualmente, "as árvores que souberes que não são árvores de alimento, destruí-las-ás e cortá-las-ás", demonstrando que derrubar árvorer, por óbvio, não é pecado - desde que não prejudique o mantimento e outras coisas mais.

Mais uma vez podemos ler sobre como o Senhor arquiteta e organiza a natureza de tal modo que "todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28): "Também enviarei vespões adiante de ti, que lancem fora os heveus, os cananeus, e os heteus de diante de ti. Não os lançarei fora de diante de ti num só ano, para que a terra não se torne em deserto, e as feras do campo não se multipliquem contra ti". (Êx 23.28-29). Quando o povo do Altíssimo estava conquistando a terra prometida, o Eterno Deus deixou explícito que iria dissipar aos poucos o povo inimigo, caso contrário a terra estaria desabitada por homens e as feras do campo se multiplicariam contra os filhos de Deus (pois não haveria homem para domar e/ou matar tais animais selvagens), demonstrando a necessidade de entendermos que toda a natureza trabalha segundo o bom propósito de Deus e que cabe a nós zelar por ela.

Desta forma, querido leitor, ainda que ligeiramente, penso ter ficado clara a mensagem: a natureza é criação de Deus e precisamos zelar por ela. Não serei atrevido a ponto de elencar tudo o que deveríamos fazer, até porque seria impossível, mas certamente você conhece alguns bons modos que podemos testemunhar do bom proceder cristão, tais como economizar água, reciclar o lixo, não jogar comida fora (não é porque você paga por ela que tem esse direito; seja prudente e pegue somente o necessário) e tantos outros atos "simples", mas que revelam um cuidado pelas coisas do Senhor.

Ninguém pense, porém, que estou exaltando a fauna e flora acima dos seres humanos, como se o cuidado com os "cachorrinhos" (Mt 15.26) fosse mais importante que o zelo pela família. Lembre-se: cuidar da natureza é importante, porque a natureza serve ao homem.

Que Deus nos abençoe e nos leve a um maior cuidado com Sua criação, "para que nos suceda bem, obedecendo à voz do Senhor nosso Deus" (Jr 42.6).

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